Os Estados Unidos concordaram em reduzir a taxa tarifária sobre as exportações de automóveis do Japão para 15%, uma medida que imediatamente provocou a insatisfação de um grupo influente que representa as três maiores montadoras de Detroit: General Motors (GM), Ford e Stellantis. Matt Blunt, chefe do American Automotive Policy Council (AAPC), que representa esses fabricantes estadunidenses, expressou a forte oposição da indústria, declarando: “Qualquer acordo que cobre mais dos veículos fabricados nos EUA do que dos veículos japoneses que entram no mercado estadunidense não é recíproco e irá perpetuar o atual desequilíbrio comercial, colocando os trabalhadores e a produção americanas em desvantagem.”
A raiz da controvérsia reside na persistente assimetria nas tarifas automotivas entre os dois países. Historicamente, o Japão mantém uma tarifa efetiva de 0% sobre as importações de automóveis dos EUA. Em contraste, os EUA impõem uma tarifa de 2,5% sobre automóveis de passageiros importados e uma tarifa substancial de 25% sobre picapes e vans leves. A decisão dos EUA de reduzir sua tarifa para 15% sobre as exportações de automóveis japoneses – embora seja uma redução – não é acompanhada por uma reciprocidade equivalente do lado japonês. Para as montadoras de Detroit, isso significa que o campo de jogo continua desigual.
O AAPC argumenta que um acordo comercial verdadeiramente justo deve garantir que as tarifas e as condições de acesso ao mercado sejam espelhadas em ambos os lados. Eles não estão apenas preocupados com a taxa tarifária em si, mas com o efeito cumulativo de um acesso mais fácil para veículos japoneses no mercado dos EUA, enquanto os veículos fabricados nos EUA enfrentam barreiras, sejam elas tarifárias ou não tarifárias, para entrar no Japão. Essa situação, segundo Blunt e o AAPC, exacerba o déficit comercial existente no setor automotivo e prejudica a capacidade das empresas americanas de competir globalmente.
A preocupação do grupo é multifacetada. Primeiro, a falta de reciprocidade pode incentivar a produção fora dos EUA, em vez de dentro do país, diminuindo o investimento doméstico e a criação de empregos para os trabalhadores americanos. Em segundo lugar, argumentam que o governo dos EUA deveria usar sua influência comercial para exigir condições mais equitativas, garantindo que os carros americanos não sejam discriminados nos mercados estrangeiros. A redução tarifária unilateral, vista por eles, desaproveita uma valiosa ferramenta de negociação sem obter concessões significativas em troca.
Este episódio destaca a tensão contínua entre as políticas comerciais de um governo que busca acordos e uma indústria nacional que exige proteção e equidade. Para GM, Ford e Stellantis, que investem pesadamente em fabricação e pesquisa e desenvolvimento nos EUA, a percepção de que suas contrapartes japonesas desfrutam de uma vantagem competitiva inata devido às políticas tarifárias é uma fonte de frustração. Eles defendem que qualquer acordo deve ser construído sobre os princípios de comércio livre e justo, o que, para eles, significa que os impostos e as barreiras de entrada para automóveis devem ser simétricos em ambos os países. Sem essa simetria, a indústria automotiva de Detroit continuará a “tocar o alarme” sobre as consequências para a sua competitividade e para a saúde do emprego no setor.