Carro Elétrico
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Tempra 2 portas: o flop brasileiro que nem a Europa viu

O Fiat Tempra, lançado no Brasil em 1991, chegou ao mercado com a missão de elevar o patamar da marca no segmento de sedãs médios, competindo diretamente com modelos como o Chevrolet Monza e o Volkswagen Santana. Com um design moderno para a época, interior espaçoso e uma gama de tecnologias avançadas – incluindo o elogiado motor 2.0 litros de 8 ou 16 válvulas, que oferecia desempenho robusto –, o Tempra de quatro portas rapidamente conquistou o público brasileiro, tornando-se um símbolo de status e sofisticação. A Fiat investiu pesado na imagem de um carro superior, e o Tempra se consolidou como um veículo desejado por muitos, especialmente nas suas versões mais equipadas.

No entanto, em um movimento que se mostraria um dos maiores equívocos de estratégia da Fiat no Brasil, a montadora decidiu, no início de 1993, lançar uma versão duas portas do aclamado sedã. A ideia, que supostamente visava atender a uma parcela do mercado em busca de um veículo com apelo mais esportivo ou “clean” sem as portas traseiras, foi concebida e desenvolvida especificamente para o mercado brasileiro. Diferente da Europa, onde a carroceria duas portas era quase inexistente para o Tempra, ou se manifestava em cupês mais distintos (como o Tipo Coupé), a adaptação para o sedã de luxo aqui era vista como uma inovação que poderia agregar valor ou versatilidade.

O lançamento, contudo, foi recebido com mais estranhamento do que entusiasmo. No Brasil, o consumidor de sedãs médios e grandes priorizava a praticidade e o conforto para todos os ocupantes. Um carro familiar ou executivo com apenas duas portas limitava o acesso ao banco traseiro, tornando-o menos conveniente para o dia a dia de famílias ou para quem frequentemente transportava mais de um passageiro. Além disso, a versão duas portas, apesar de manter as linhas gerais do Tempra, acabou perdendo um pouco da imponência e da harmonia visual que o modelo de quatro portas possuía. As portas maiores e a ausência das traseiras pareciam descaracterizar o propósito original do carro como um sedã sofisticado.

Ainda que o mercado brasileiro da época tivesse uma certa afeição por carros de duas portas, essa preferência se concentrava em modelos compactos, hatchbacks ou verdadeiros esportivos e cupês. Um sedã de porte médio-grande com apenas duas portas não se encaixava em nenhuma dessas categorias de forma convincente. Ele não era um esportivo puro, nem oferecia a economia de um compacto, e muito menos a praticidade de um sedã. O público que comprava um Tempra buscava justamente o conforto e o espaço das quatro portas, a imagem de um carro familiar ou executivo bem resolvido.

Os resultados foram desastrosos. As vendas da versão duas portas foram pífias, não atingindo as expectativas mínimas da Fiat. Em um cenário onde o Tempra de quatro portas continuava vendendo bem, a versão de duas portas se tornou um peso morto no catálogo da marca. Estima-se que, ao longo de sua breve existência, foram comercializadas cerca de 500 unidades em todo o Brasil – um número chocantemente baixo, que evidencia o completo desinteresse do público. Diante da baixa procura e da clara falta de viabilidade comercial, a Fiat tomou a decisão inevitável: o Tempra duas portas saiu de linha em apenas dois anos após seu lançamento, em 1995, tornando-se um dos maiores “micos” da história da indústria automobilística brasileira.

A história do Tempra duas portas serve como um lembrete valioso de que nem toda inovação ou adaptação é bem-sucedida, especialmente quando não se alinha com as reais necessidades e preferências do mercado. O modelo de duas portas, que nunca viu a luz do dia na Europa como um sedã, permaneceu como uma curiosidade e um exemplo de como uma proposta que parecia interessante no papel pode se traduzir em um fracasso retumbante na prática, deixando para trás um legado de um belo carro, mas com uma versão indesejada e rapidamente esquecida.