Um especialista em mitigação de riscos de transporte explicou em uma entrevista ao Autoblog por que os veículos híbridos podem apresentar riscos de incêndio mais complicados do que as pessoas geralmente imaginam. William S. Lerner, um consultor de segurança em transporte para baterias de íon-lítio e tecnologia de hidrogênio, concedeu que, ao contrário dos veículos puramente a combustão interna ou puramente elétricos, os híbridos combinam duas fontes de energia fundamentalmente diferentes, cada uma com seu próprio perfil de risco inerente. Essa combinação, embora eficiente em termos de consumo de combustível e emissões, introduz uma camada de complexidade na resposta a emergências, especialmente em casos de incêndio.
A primeira razão para essa complicação reside na coexistência de um sistema de propulsão a gasolina tradicional e um sistema elétrico de alta voltagem. Os veículos a gasolina armazenam um combustível altamente inflamável em um tanque, cujos vapores podem gerar incêndios intensos e de rápida propagação. Os bombeiros estão bem familiarizados com a supressão desses tipos de incêndios. No entanto, os veículos híbridos também possuem um pacote de baterias de íon-lítio, semelhante aos carros elétricos puros. Incêndios em baterias de íon-lítio são notoriamente difíceis de controlar e extinguir. Eles podem sofrer de um fenômeno conhecido como ‘fuga térmica’, onde o calor gerado internamente pela bateria causa uma reação em cadeia, levando a um aumento descontrolado de temperatura e, consequentemente, à ignição. Esses incêndios liberam gases tóxicos, requerem grandes volumes de água para resfriamento contínuo e podem reacender horas ou até dias após serem inicialmente controlados, tornando a cena do incidente perigosa por um longo período. A presença simultânea dessas duas naturezas de combustível – líquido inflamável e bateria com risco de fuga térmica – exige que os socorristas estejam preparados para lidar com cenários de incêndio duplos, que podem se manifestar de maneiras distintas e exigir abordagens de combate e contenção diferentes e, por vezes, conflitantes.
A segunda complicação surge da proximidade e interconexão desses sistemas distintos dentro do mesmo chassi do veículo. Enquanto um veículo a gasolina pura tem o risco primário centrado no tanque de combustível e linhas de combustível, e um veículo elétrico puro no pacote de baterias, um híbrido integra ambos em um espaço relativamente limitado. Isso significa que um dano por colisão em uma área pode comprometer ambos os sistemas simultaneamente. Por exemplo, um impacto que danifique o tanque de combustível também pode danificar o pacote de baterias adjacente ou sua fiação de alta voltagem. Se a gasolina iniciar um incêndio, o calor intenso pode propagar-se para a bateria, precipitando uma fuga térmica, ou vice-versa. Essa interdependência física e energética cria um desafio significativo para os socorristas. Eles precisam identificar rapidamente a extensão dos danos e quais sistemas estão comprometidos, enquanto gerenciam os riscos de ambas as fontes de energia. Desativar com segurança um sistema de alta voltagem enquanto um incêndio a gasolina está em andamento, ou vice-versa, adiciona uma camada de complexidade sem precedentes.
Lerner enfatizou que esses desafios exigem um novo nível de treinamento e equipamentos especializados para as equipes de emergência. A familiaridade com apenas um tipo de incêndio veicular não é suficiente. É fundamental que os primeiros respondedores compreendam as nuances de ambos os sistemas – gasolina e elétrico – e saibam como isolá-los ou gerenciá-los efetivamente em uma situação de emergência. Além disso, a indústria automobilística e as agências reguladoras precisam continuar a pesquisar e implementar designs que minimizem esses riscos, melhorando a proteção das baterias e dos tanques de combustível e fornecendo pontos de desconexão mais acessíveis e seguros. A conscientização pública sobre esses riscos e a importância de relatar imediatamente qualquer sinal de fumaça ou calor em um veículo acidentado são passos cruciais para garantir a segurança de todos. A evolução da tecnologia veicular exige uma evolução correspondente nas estratégias de segurança.