Carro Elétrico
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Aquele VE que você acabou de comprar provavelmente tem autonomia demais

Um novo estudo indica que os proprietários de veículos elétricos (VEs) não estão utilizando com frequência a capacidade total de autonomia de seus carros. Dados de mais de 40.000 VEs mostram que os proprietários estão “deixando autonomia na mesa” em suas rotinas diárias, ou seja, não a aproveitam completamente. No entanto, a tendência na indústria automotiva é exatamente o oposto – as montadoras continuam a adicionar autonomia crescente aos novos modelos, buscando superar a ‘ansiedade de autonomia’ dos consumidores. Essa dissonância levanta questões importantes sobre a estratégia de desenvolvimento dos VEs e o que realmente os motoristas precisam.

A pesquisa em questão, que analisou o comportamento de condução de dezenas de milhares de VEs, revelou que a grande maioria dos motoristas raramente esgota a bateria de seus veículos. A utilização típica envolve viagens diárias curtas a médias, com recargas frequentes – muitas vezes durante a noite em casa ou no trabalho. Mesmo em viagens mais longas, a infraestrutura de carregamento rápido em crescimento permite paradas estratégicas que evitam a necessidade de uma autonomia extremamente elevada em uma única carga.

Essa constatação sugere que a corrida por VEs com 500, 600 ou até 800 quilômetros de autonomia pode estar desalinhada com o uso prático da maioria dos consumidores. Enquanto uma autonomia maior oferece flexibilidade e paz de espírito para viagens ocasionais, a realidade é que a capacidade extra está frequentemente subutilizada. O custo de uma bateria maior é um fator significativo, tanto em termos de preço final do veículo quanto de peso, o que pode impactar a eficiência e o manuseio.

Fabricantes como Tesla, Lucid e Mercedes-Benz têm se orgulhado de seus modelos com as maiores autonomias do mercado. Essa competição é impulsionada, em parte, pela percepção de que a autonomia é um dos principais fatores decisórios para os compradores de VEs. Muitos consumidores ainda comparam os VEs aos veículos a combustão interna, onde um tanque cheio oferece centenas de quilômetros sem interrupção. A ‘ansiedade de autonomia’ é um medo real para potenciais compradores que temem ficar sem carga em locais remotos ou enfrentar longas esperas em pontos de recarga.

No entanto, o estudo desafia essa premissa. Se os dados mostram que a autonomia de 300 a 400 quilômetros já é mais do que suficiente para a vasta maioria das rotinas diárias e até para muitas viagens de fim de semana, por que a indústria insiste em baterias maiores? Uma das razões pode ser a necessidade de se diferenciar em um mercado cada vez mais competitivo. Outra é o desejo de atrair consumidores de longa distância ou aqueles que vivem em áreas com infraestrutura de carregamento menos desenvolvida.

A reflexão que surge é se as montadoras deveriam focar em otimizar a autonomia para o uso diário médio, talvez investindo mais em velocidade de carregamento, durabilidade da bateria ou acessibilidade do preço, em vez de apenas empilhar quilômetros de autonomia. Modelos com autonomias mais “modestas”, mas mais acessíveis e eficientes, poderiam acelerar a adoção de VEs de forma mais ampla. Afinal, uma bateria menor significa menos recursos, menos peso e, potencialmente, um preço de venda mais baixo.

Isso não significa que a autonomia de longo alcance seja desnecessária para todos. Para motoristas de táxi, frotas comerciais ou pessoas que viajam longas distâncias regularmente sem acesso fácil a carregadores, uma autonomia superior é, sem dúvida, um benefício. No entanto, para o condutor médio, a busca incessante por mais autonomia pode estar levando a um excesso de engenharia e a um aumento desnecessário nos custos, que no final são repassados ao consumidor. A indústria automotiva precisa encontrar um equilíbrio entre as expectativas do mercado e o uso prático real dos VEs para garantir um futuro sustentável para a mobilidade elétrica.