Após anos de atrasos e planos alterados, a Aston Martin planeia finalmente lançar o seu primeiro veículo elétrico até ao final da década. Agora, a montadora britânica está a considerar como tornar um EV tão envolvente e emocionante quanto os seus carros a gasolina, e numa entrevista recente, um dos seus principais executivos deu a entender que poderá adotar uma abordagem inovadora e até controversa para o conseguir.
A transição para a eletrificação representa um desafio único para marcas de luxo e performance como a Aston Martin, cujos modelos são celebrados não apenas pela sua estética e potência, mas também pela experiência visceral de condução – o rugido inconfundível do motor, a vibração do chassi, a sensação tátil de cada mudança de marcha. Com os veículos elétricos, esses elementos sensoriais, tão cruciais para a identidade de um carro desportivo, são inerentemente minimizados ou ausentes. Os EVs são silenciosos, lineares e, por vezes, carecem da “alma” mecânica que os entusiastas tanto valorizam.
É neste contexto que a Aston Martin, juntamente com outros fabricantes, explora soluções para recriar ou reinventar essa experiência. A sugestão de “sons falsos de EV e mudanças de marcha” ao estilo do Hyundai N é particularmente intrigante. A divisão de alta performance da Hyundai, com os seus modelos i20 N e i30 N elétricos, tem sido pioneira em tecnologias que simulam o som do motor a combustão interna e até a sensação das mudanças de marcha através de feedback háptico e áudio nos seus protótipos e modelos de produção. O objetivo não é enganar o condutor, mas sim preencher o vazio sensorial e proporcionar uma ligação mais emocional com a máquina.
Para a Aston Martin, isso significaria decidir se a recriação de uma experiência ICE (Motor de Combustão Interna) é o caminho certo, ou se deveriam desenvolver uma “voz” elétrica distinta, mas igualmente cativante. O desafio é criar algo que seja autêntico para a marca, sem parecer um truque barato. Poderiam os seus EVs emitir um som que evoque o seu legado V8 ou V12, mas com uma roupagem futurista? Ou deveriam criar um som inteiramente novo que celebre a potência instantânea e a suavidade da propulsão elétrica?
A implementação de mudanças de marcha simuladas é outra área de debate. Embora os EVs não necessitem de uma caixa de velocidades convencional, a ação de mudar de marcha é uma parte intrínseca da experiência de condução desportiva para muitos. A simulação pode envolver alavancas no volante que ativam um feedback sonoro e uma ligeira alteração na entrega de potência, imitando a sensação de um engate de marcha. Isso poderia dar ao condutor um maior controlo percebido e um elemento de interação que de outra forma estaria ausente.
A busca por envolver o condutor vai além de sons e marchas. A Aston Martin terá de garantir que a direção, o chassis, o desempenho dos travões e a resposta geral do veículo ofereçam o mesmo nível de precisão e emoção que os seus carros a gasolina. A conectividade, a ergonomia e o design interior também desempenharão um papel crucial na diferenciação dos seus EVs no segmento de luxo.
Outras marcas já estão a explorar caminhos semelhantes. A Porsche, com o seu Taycan, oferece um “Electric Sport Sound” opcional que amplifica o som distinto dos seus motores elétricos. A Dodge, com o seu Charger Daytona EV, promete um sistema de escape “Fratzonic Chambered Exhaust” que, através de um sistema de som exterior, pode atingir os decibéis de um Hellcat a gasolina, marcando uma tentativa ousada de transferir a agressividade sonora para o mundo elétrico.
A questão central para a Aston Martin é como honrar a sua rica herança enquanto abraça o futuro elétrico. A abertura para ideias como os sons e as mudanças de marcha simuladas sugere uma vontade de experimentar e de colocar a experiência do condutor em primeiro lugar, mesmo que isso signifique desafiar as convenções puristas. O objetivo final é garantir que um Aston Martin elétrico, tal como os seus antecessores a gasolina, permaneça um carro que não só se conduz, mas que se sente e se ouve, proporcionando uma conexão emocional inigualável.