A Mazda está, aparentemente, explorando um conceito revolucionário que redefine o futuro dos motores de combustão interna, conforme revelado por um projeto de patente intrigante. O foco recai sobre um motor de seis tempos que promete uma proeza notável: a capacidade de transformar gasolina em hidrogênio *dentro do próprio motor* e operar sem emitir dióxido de carbono (CO2) pelo escapamento. Esta inovação representa um salto potencialmente monumental na busca por veículos sustentáveis, oferecendo uma ponte para um futuro de energia limpa sem a necessidade imediata de uma infraestrutura de hidrogênio amplamente desenvolvida.
No cerne desta tecnologia está o motor de seis tempos. Diferente dos motores convencionais de quatro tempos (admissão, compressão, combustão, exaustão), os dois tempos adicionais são dedicados a processos que viabilizam esta conversão e combustão limpa. Imagine que, após a exaustão dos gases de escape tradicionais (que, neste caso, seriam vapor d’água da combustão do hidrogênio), o motor realiza mais dois ciclos. O primeiro desses ciclos adicionais poderia ser o da “reforma” da gasolina, onde o combustível líquido é quimicamente processado para extrair hidrogênio. O segundo tempo extra, ou mesmo parte do processo de reforma, seria dedicado à gestão do carbono, talvez capturando o CO2 resultante da separação do hidrogênio da gasolina, ou utilizando-o internamente em um ciclo fechado.
O processo de transformação da gasolina em hidrogênio é a chave para o “flex” do sistema. A gasolina, composta por hidrocarbonetos (carbono e hidrogênio), pode ser “reformada” para separar o hidrogênio. Isso geralmente envolve reações químicas em altas temperaturas, como a reforma a vapor. Em um motor de seis tempos, esta reforma aconteceria de forma controlada e integrada. O CO2, subproduto inevitável da separação do hidrogênio do carbono na gasolina, seria então inteligentemente gerenciado *dentro do sistema do motor* para garantir que não saia pelo escapamento. Mecanismos internos de captura e armazenamento, ou até mesmo a reconversão em outros produtos *dentro do ciclo do motor*, seriam essenciais para atingir a promessa de emissão zero no ponto de uso.
Uma vez que o hidrogênio é gerado internamente, ele é imediatamente queimado nas câmaras de combustão do motor, produzindo energia e, crucialmente, apenas vapor d’água como subproduto de exaustão. Este é o diferencial: o escapamento do veículo não liberaria CO2, fuligem ou outros poluentes associados à queima de combustíveis fósseis. O CO2 da reforma seria isolado do ambiente.
Os benefícios de tal tecnologia são múltiplos e profundos. Primeiramente, ela endereça diretamente a preocupação ambiental com as emissões de gases de efeito estufa dos veículos. Ao eliminar o CO2 da exaustão, o motor da Mazda contribuiria significativamente para a descarbonização do transporte. Em segundo lugar, a flexibilidade é um grande atrativo. Como o motor utiliza gasolina como combustível inicial, ele se beneficia da infraestrutura de abastecimento já existente em todo o mundo. Isso remove uma das maiores barreiras para a adoção generalizada de veículos a hidrogênio: a falta de postos de abastecimento. Motoristas não precisariam de postos de hidrogênio; seus veículos o produziriam na hora.
Além disso, a produção on-board de hidrogênio evita os desafios de armazenamento e transporte do hidrogênio puro, que é um gás muito volátil e requer tanques pressurizados ou criogênicos. Com o sistema da Mazda, o hidrogênio é gerado sob demanda, eliminando a necessidade de grandes e caros tanques a bordo, o que pode levar a um design de veículo mais leve e com melhor aproveitamento de espaço.
Contudo, a implementação de um motor tão avançado não viria sem desafios. A complexidade mecânica e termodinâmica de integrar a reforma de combustível e a captura de carbono em um motor de seis tempos é imensa. A eficiência energética da conversão de gasolina em hidrogênio, o gerenciamento de calor e a durabilidade dos componentes expostos a tais processos seriam considerações críticas. Além disso, a pergunta sobre o destino final do carbono capturado permanece. Seria ele armazenado a bordo e periodicamente descartado, ou haveria uma forma inovadora de reutilização dentro do ciclo do motor?
Se bem-sucedida, a patente da Mazda poderia redefinir a viabilidade dos motores de combustão interna em um mundo cada vez mais focado na sustentabilidade. Ela oferece uma alternativa intrigante aos veículos elétricos a bateria e aos veículos elétricos a célula de combustível (FCEVs) que dependem de uma infraestrutura de hidrogênio externa. A capacidade de usar um combustível líquido familiar para produzir hidrogênio limpo on-board, com zero emissões de CO2 pelo escapamento, posiciona esta tecnologia como um potencial divisor de águas, abrindo caminho para uma nova era de motores de combustão interna ecologicamente conscientes.