Quer você tenha passado tempo demais navegando pelo inventário nos sites das concessionárias locais ou horas a fio descobrindo qual cor de pintura seu próximo carro ou carro dos sonhos fica melhor no configurador, dói saber que carros novos permanecem muito fora do alcance da maioria dos compradores. De acordo com dados recentes, a dívida total de empréstimos automotivos nos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 1,6 trilhão, um recorde que tem levado especialistas a soar o alarme sobre a saúde financeira dos consumidores americanos.
Esse aumento alarmante não é apenas resultado da paixão por veículos novos, mas sim de uma confluência de fatores econômicos. A inflação galopante, os problemas na cadeia de suprimentos que limitaram a produção e a forte demanda pós-pandemia impulsionaram os preços dos carros a níveis sem precedentes. O preço médio de um carro novo nos EUA se aproxima de US$ 48.000, um salto significativo em relação a apenas alguns anos atrás. Para muitos, essa realidade se traduz em pagamentos mensais insustentáveis ou na necessidade de se comprometer com empréstimos de prazos cada vez mais longos.
O cenário é ainda mais complicado pelos juros crescentes. Com a Reserva Federal elevando as taxas para combater a inflação, o custo de tomar empréstimos — incluindo os de automóveis — disparou. A taxa de juros média para um empréstimo de carro novo, que já era considerável, subiu ainda mais, adicionando centenas ou milhares de dólares ao custo total de propriedade ao longo da vida do empréstimo. Como resultado, o pagamento mensal médio para um carro novo agora excede US$ 700, um valor que representa uma fatia substancial do orçamento familiar para muitos americanos.
Para tornar os pagamentos mais “acessíveis” ou para permitir que os compradores adquiram veículos mais caros, os credores têm estendido os prazos dos empréstimos. Não é incomum encontrar empréstimos de 72, 84 ou até 96 meses. Embora isso reduza o pagamento mensal imediato, os riscos são enormes. Prazos mais longos significam que os consumidores pagam mais juros ao longo do tempo. Além disso, a probabilidade de o carro perder valor mais rapidamente do que o saldo do empréstimo aumenta, colocando os proprietários em uma situação de “capital negativo” (underside down), onde devem mais do que o veículo vale. Isso dificulta a troca ou venda do carro e pode levar a sérios problemas financeiros se o carro for roubado ou acidentado.
A fragilidade desse mercado é um ponto de preocupação para economistas e reguladores. Um número crescente de mutuários está atrasando seus pagamentos, e as taxas de inadimplência, embora ainda não em níveis de crise, estão em ascensão. Em particular, os mutuários com histórico de crédito mais fraco são os mais afetados, enfrentando juros mais altos e termos menos favoráveis. Isso cria um ciclo vicioso onde aqueles que mais precisam de acessibilidade são os que pagam o preço mais alto.
A situação atual sugere que a posse de um veículo, que sempre foi um pilar do “sonho americano” e uma necessidade para muitos devido à infraestrutura de transporte, está se tornando um luxo inatingível. Especialistas alertam que, sem mudanças significativas nas tendências de preços e nas práticas de empréstimos, a dívida automotiva pode se tornar um fardo ainda maior para as famílias, com repercussões mais amplas para a economia.