Desmanche legal: Carros viram peças, preço cai pela metade

Nos últimos anos, as montadoras têm expandido seu modelo de negócio, passando de meras fabricantes a prestadoras de serviços de mobilidade. Essa transformação se reflete na forma como oferecem veículos, locação e, crucialmente, peças de manutenção.

A Stellantis, detentora das marcas Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën, inaugurou em agosto o primeiro centro de desmontagem veicular da América Latina. Com um investimento de R$ 13 milhões em Osasco (SP), a unidade marca a entrada da montadora na “reciclagem estruturada de veículos sinistrados e em fim de vida útil”. Na prática, a empresa reaproveita carros – inclusive de outras marcas – que não podem mais rodar, seja por acidentes ou obsolescência, desmantelando-os para reciclar e reutilizar suas partes. Alexandre Aquino, vice-presidente de economia circular da Stellantis para a América do Sul, destaca que a iniciativa gera valor para uma cadeia ainda pouco explorada. Com isso, a Stellantis se torna pioneira na América do Sul no desmonte legal e rastreável de automóveis, um segmento no qual a Toyota também planeja investir.

O mercado de reposição automotiva movimenta R$ 260 bilhões anualmente no Brasil. Estima-se que dois milhões de veículos cheguem ao fim da vida útil por ano, mas apenas 1,5% desse total recebe destinação adequada, segundo a Abcar e o Sindinesfa. Esse cenário revela um potencial inexplorado de R$ 14 bilhões anuais em peças recuperáveis. Globalmente, o mercado de remanufatura movimentou US$ 70 bilhões em 2024. A Lei do Desmanche (n.º 12.977/2014) busca formalizar o setor e combater o comércio ilegal de peças, exigindo credenciamento e rastreabilidade. Contudo, poucos estados, além de São Paulo, cumprem plenamente a regulamentação, o que dificulta a obtenção de dados precisos sobre o preço médio de peças remanufaturadas no país.

A atratividade do desmanche legal reside no custo. Peças remanufaturadas são, em média, 50% mais baratas que as novas, pois eliminam o custo de produção industrial. O processo de desmontagem é economicamente mais vantajoso que a fabricação de uma nova peça. Essa prática também promove a sustentabilidade, pois uma peça recondicionada pode evitar o desperdício de até 80% da matéria-prima necessária para uma nova. Como exemplo, um farol de Jeep Commander, que custa R$ 3.500 novo, pode ser revendido por R$ 1.500 após recuperação pela Stellantis.

O processo de desmanche é dividido em cinco etapas principais:
1. **Teste de motor e eletrônica:** Verificação de componentes funcionais.
2. **Descontaminação:** Retirada de todos os fluidos do veículo (óleos, combustíveis, arrefecimento).
3. **Desmontagem:** Remoção física do motor, câmbio, rodas, eixos, lataria e acabamentos internos.
4. **Lavagem das peças:** Limpeza dos componentes recuperáveis.
5. **Fotografia e cadastro:** Peças são fotografadas, etiquetadas pelo Detran e publicadas para venda.
É importante notar que peças de segurança (airbags, freios, cintos) não são reaproveitadas e seguem para reciclagem especializada, assim como sistemas eletrônicos. “Desmontar um carro é mais fácil do que montar”, explica Martin Siroit, da Circular AutoPeças, enfatizando o foco nas peças reutilizáveis.

Após a limpeza, as peças são classificadas de 0 a 9 (estado de conservação) e recebem uma etiqueta de rastreamento do Detran, com informações sobre origem e procedência. Essa transparência garante segurança e combate fraudes, solidificando o papel da economia circular no setor automotivo.