Vendas de EVs na Alemanha: 25% podem ser ‘fake’, diz estudo.

Uma recente análise do mercado automotivo na Alemanha trouxe à tona uma prática preocupante que pode estar distorcendo significativamente os números de vendas de veículos elétricos (VEs). Segundo um levantamento de uma associação especializada, até 25% das “vendas” de VEs no país podem ser, na verdade, registros massivos por parte das próprias concessionárias e fabricantes, não representando uma transação real com o consumidor final. Esta estratégia visa inflar artificialmente as estatísticas e, crucialmente, ajudar a evitar pesadas multas ambientais impostas pela União Europeia (UE).

O mecanismo por trás dessas “vendas falsas” é relativamente simples, mas eficaz. Concessionárias e, por vezes, os próprios fabricantes, estão a proceder ao registo de veículos elétricos novos em seu próprio nome ou em nome de entidades subsidiárias. Estes carros, embora oficialmente “vendidos” e contabilizados nas estatísticas, permanecem no estoque, muitas vezes sem um comprador imediato. Eles são então reetiquetados como “zero quilômetro” ou “pré-registrados” e, posteriormente, colocados à venda com descontos significativos para atrair compradores. A finalidade primária é garantir que o veículo seja oficialmente registrado dentro de um determinado período fiscal ou regulamentar, independentemente de ter sido entregue a um cliente.

A principal força motriz por trás dessa prática são as rigorosas metas de emissões de CO2 da União Europeia. A UE impõe limites cada vez mais apertados para as emissões médias de CO2 da frota de veículos novos de cada fabricante. Para o ano de 2021, o limite médio foi de 95 gramas de CO2 por quilômetro. Empresas que não cumprem esses limites enfrentam multas que podem ascender a centenas de milhões de euros anualmente. Cada VE vendido (ou registrado) ajuda a reduzir a média geral de emissões de uma marca, pois é considerado um veículo com zero emissões, contribuindo assim para o cumprimento das metas e a mitigação das multas.

A consequência mais imediata desta manobra é a distorção dos dados de mercado. Ao inflacionar artificialmente os números de vendas de VEs, o panorama da adoção de veículos elétricos na Alemanha – um dos maiores mercados automotivos da Europa – torna-se enganoso. Isso pode levar a uma percepção superestimada do progresso na transição para a mobilidade elétrica, potencialmente influenciando políticas governamentais, investimentos em infraestrutura de carregamento e estratégias de fabricação. Se os formuladores de políticas basearem suas decisões em números inflacionados, os recursos podem ser mal alocados, ou as necessidades reais do mercado podem ser subestimadas ou incompreendidas.

Embora a prática possa parecer uma solução inteligente para evitar multas, ela acarreta seus próprios custos e desafios. Para as concessionárias, a pré-matrícula de veículos significa assumir a depreciação, os custos de seguro, armazenamento e a necessidade de liquidar esses carros mais tarde, muitas vezes com margens de lucro reduzidas. Para os consumidores, embora possam ter acesso a veículos “novos” com descontos, a transparência do mercado é comprometida. A situação levanta questões éticas sobre a integridade dos relatórios de vendas e a verdadeira saúde do mercado de VEs.

A revelação dessa prática sublinha a complexidade da transição energética no setor automotivo e as pressões que recaem sobre fabricantes e revendedores. À medida que os governos e reguladores em todo o mundo empurram agressivamente para a eletrificação da frota de veículos, é crucial que os dados que sustentam essas políticas sejam precisos e transparentes. Somente com informações confiáveis será possível avaliar o real progresso, identificar gargalos e desenvolver estratégias eficazes para uma transição genuína e sustentável para a mobilidade elétrica. A Associação que fez o levantamento reitera a importância de uma fiscalização mais rigorosa para garantir que os números reflitam a realidade das vendas ao consumidor final.