Do pasto ao carro: a jornada do couro automotivo

Nossa recente visita nos levou ao coração de uma das maiores e mais avançadas operações no setor de curtumes, um fornecedor chave para a exigente indústria automobilística global. Foi uma imersão profunda e reveladora, que nos permitiu desvendar cada etapa da intrincada jornada que transforma a pele animal, em seu estado mais natural, no sofisticado e resistente couro que reveste os interiores dos veículos modernos.

O processo começa muito antes da pele chegar à fábrica. As peles, subproduto da indústria de carne, são cuidadosamente selecionadas e conservadas para garantir sua integridade. Ao adentrar o curtume, testemunhamos o início da fase de preparação, conhecida como ribeira. Aqui, as peles in natura são submetidas a uma série de banhos e tratamentos. Primeiro, a maceração e a lavagem removem sujidades, sangue e sal. Em seguida, o caleiro, onde as peles são imersas em soluções alcalinas, remove pelos, epiderme e substâncias não-colagênicas, preparando a fibra para o curtimento. Após o caleiro, a fase de desencalagem e purga refina a estrutura da pele, seguida pelo descarne, que remove o tecido subcutâneo e gorduras, deixando apenas a derme pura. Em muitos casos, a pele é então dividida em camadas, com a camada superior, mais nobre (flor), sendo destinada ao couro automotivo.

A etapa seguinte é o curtimento propriamente dito, o ponto crucial onde a pele putrescível é quimicamente estabilizada e transformada em couro. A maioria dos couros automotivos utiliza o curtimento ao cromo, conhecido por sua durabilidade, resistência ao calor e à luz, embora alternativas sem cromo estejam ganhando espaço. Após o curtimento, o couro, agora um “wet-blue” ou “wet-white”, é espremido para remover o excesso de umidade e classificado.

O estágio pós-curtimento, ou “wet-end”, é onde o couro ganha suas características específicas. Ele é recurtido para ajustar a plenitude e a maciez, tingido em grandes tambores rotativos para alcançar a cor desejada (com pigmentos de alta solidez para resistir ao desbotamento), e engraxado para conferir flexibilidade, resistência e toque. É nesse ponto que as propriedades de desempenho específicas para o setor automotivo começam a ser incorporadas, como resistência à abrasão e à tração.

Finalmente, o couro segue para a fase de acabamento, um conjunto de operações que conferem a textura, o brilho, a proteção e o toque final. Após a secagem controlada, as peles são amaciadas mecanicamente (estacagem) para restaurar a flexibilidade. O lixamento e o polimento podem ser aplicados para refinar a superfície, e uma camada protetora é pulverizada ou aplicada por rolos. Esta camada final é vital para o couro automotivo, oferecendo resistência a manchas, arranhões, raios UV, e suor, além de proporcionar a cor e o brilho desejados. Técnicas de gravação (embossing) podem ser usadas para criar padrões ou uniformizar a superfície. Cada peça passa por rigorosos controles de qualidade, verificando espessura, cor, resistência e quaisquer defeitos, garantindo que atenda aos padrões extremamente elevados exigidos pela indústria automobilística, que demandam não apenas estética, mas também segurança e durabilidade ao longo de muitos anos de uso intensivo. Essa jornada é uma verdadeira alquimia, convertendo uma matéria-prima simples em um componente sofisticado e de alta performance.