Apesar dos avanços tecnológicos significativos na indústria automotiva, que resultaram em veículos cada vez mais eficientes e menos poluentes, incluindo a crescente popularidade dos carros elétricos, o Brasil enfrenta um paradoxo preocupante: a emissão total de poluentes atmosféricos proveniente de veículos continua em ascensão. Longe de ser um contrassenso, essa realidade complexa é impulsionada por dois fatores principais: o crescimento exponencial da frota veicular nacional e um tipo de poluição frequentemente negligenciado – o desgaste mecânico de componentes como freios e pneus.
Tradicionalmente, a preocupação com a poluição automotiva centrava-se nas emissões do escapamento, como monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NOx), hidrocarbonetos não queimados (HC) e material particulado (MP). Regulamentações mais rigorosas, como as normas Euro no Brasil (PROCONVE), e a introdução de tecnologias como catalisadores e filtros de partículas diesel, têm sido eficazes na redução desses poluentes por veículo. Veículos elétricos, por sua vez, prometem zerar as emissões no ponto de uso, representando um salto ainda maior para a qualidade do ar urbano. No entanto, o problema é mais abrangente.
O primeiro grande motor desse aumento é o ininterrupto crescimento da frota de veículos automotores. Ano após ano, mais carros, motos, ônibus e caminhões são adicionados às ruas e estradas brasileiras. Mesmo que cada novo veículo polua individualmente menos que seus predecessores, o efeito cumulativo de milhões de unidades adicionais rodando diariamente anula, ou até supera, os ganhos tecnológicos. Mais veículos significam mais quilômetros percorridos, mais congestionamentos – que resultam em motores funcionando em condições de baixa eficiência e alta emissão –, e, consequentemente, uma carga poluente agregada maior sobre o meio ambiente e a saúde pública.
Contudo, uma parcela cada vez mais significativa da poluição veicular moderna não provém do escapamento. Estamos falando das chamadas “emissões não-exaustivas”, que são liberadas pelo atrito e desgaste de componentes mecânicos. Os principais vilões aqui são os freios e os pneus. A cada frenagem, partículas microscópicas de metal, amianto (em pastilhas mais antigas), carbono e outros ligantes são liberadas para o ar. Da mesma forma, o constante contato dos pneus com o asfalto, acelerado pelo peso do veículo e pela fricção, gera micropartículas de borracha e microplásticos. Essas partículas, muitas vezes menores que 2,5 micrômetros (PM2.5), são altamente perigosas, pois podem ser facilmente inaladas e penetrar profundamente nos pulmões, atingindo a corrente sanguínea.
A composição química dessas partículas de freios e pneus é um coquetel tóxico. Os freios podem liberar metais pesados como cobre, ferro, bário, antimônio e titânio. Os pneus, por sua vez, contribuem com uma vasta gama de polímeros sintéticos, negro de fumo e aditivos químicos. Estas substâncias são reconhecidas por seus impactos negativos na saúde humana, contribuindo para doenças respiratórias, cardiovasculares e até mesmo neurológicas. Além disso, elas se depositam no solo e nos corpos d’água, contaminando ecossistemas e entrando na cadeia alimentar.
É crucial notar que este tipo de poluição não é exclusivo de veículos a combustão. Os veículos elétricos, embora não emitam gases pelo escapamento, são frequentemente mais pesados devido ao peso de suas baterias. Esse peso adicional pode, na verdade, aumentar o desgaste dos pneus e freios (embora muitos EV usem frenagem regenerativa que reduz o uso dos freios, o peso ainda impacta os pneus). Portanto, a transição para a eletrificação, por si só, não resolverá o problema das emissões não-exaustivas.
Para o Brasil, a situação é agravada pela idade média de sua frota, que muitas vezes é superior à de países desenvolvidos, implicando em componentes de desgaste menos modernos e talvez menos eficientes. A manutenção inadequada e a falta de fiscalização para esses tipos de emissões completam o cenário desafiador.
Enfrentar essa crescente poluição exige uma abordagem multifacetada. Além de continuar a promover veículos mais limpos e a transição para a eletrificação, é imperativo implementar políticas que controlem o crescimento desenfreado da frota e invistam em transporte público de qualidade. A pesquisa e o desenvolvimento de materiais mais sustentáveis para freios e pneus são essenciais, assim como a criação de regulamentações para as emissões não-exaustivas. A conscientização pública sobre a importância da manutenção veicular e os impactos do desgaste de componentes também desempenha um papel fundamental. Somente com uma estratégia integrada será possível reverter a tendência de aumento da poluição veicular e garantir um futuro com ar mais puro para todos os brasileiros.