A ambição da Pixar para “Zootopia” ia muito além de criar um mundo habitado por animais falantes; o estúdio buscava um realismo profundo, uma lógica interna que sustentasse cada aspecto desse universo. Essa busca por autenticidade não se restringia apenas à complexa sociedade animal, suas culturas e infraestruturas urbanas, mas se estendia fundamentalmente aos seus veículos. Afinal, como funcionaria uma cidade onde animais de todos os tamanhos e formas precisavam se locomover em carros? A resposta não poderia ser simplista. Para abordar essa questão com a seriedade que o projeto exigia, a Pixar tomou uma decisão inovadora: convocar um especialista automotivo real.
O desafio era monumental. Enquanto a maioria das animações poderia se contentar com carros genéricos que apenas serviam como pano de fundo, “Zootopia” precisava de veículos que fizessem sentido dentro da sua premissa central de diversidade animal. Isso significava imaginar desde minúsculos veículos para ratos e musaranhos, até robustos e espaçosos transportes para elefantes e girafas, sem quebrar a ilusão de uma cidade funcional e interconectada. Era uma questão de ergonomia, engenharia e design social.
O especialista convocado para essa tarefa única foi J Mays, um renomado designer automotivo que havia trabalhado como Vice-Presidente de Design Global na Ford Motor Company por muitos anos. Sua experiência em moldar a estética e a funcionalidade de veículos para o mundo real era inestimável. Mays trouxe para a equipe da Pixar uma perspectiva que ia além da arte da animação, mergulhando nos princípios da usabilidade e da fabricação de automóveis.
A colaboração com Mays se focou em diversas áreas cruciais. Primeiro, a escala. Como um carro poderia ser acessível e seguro para um roedor e, ao mesmo tempo, compatível com a infraestrutura de uma cidade onde um rinoceronte também dirigia? A solução veio na forma de uma hierarquia de tamanhos de veículos e, em alguns casos, soluções modulares. Carros pequenos para os menores habitantes podiam trafegar em pistas especiais ou ser adaptados para um convívio mais próximo com veículos maiores.
Em segundo lugar, a ergonomia animal. Pense nos pedais, volantes e assentos. Como um animal com cascos, garras ou patas de tamanhos variados operaria os controles? Mays e a equipe exploraram ideias como volantes adaptáveis, pedais ajustáveis para diferentes tipos de membros e até mesmo a ausência de pedais em alguns casos, substituídos por controles manuais mais intuitivos para certas espécies. Cintos de segurança também precisavam ser repensados para se adaptar a diferentes formatos de corpo e massas.
Além da funcionalidade, o design dos carros de Zootopia também refletia a personalidade e o estilo de vida de seus “drivers”. Os carros dos predadores poderiam ter linhas mais aerodinâmicas e agressivas, enquanto os veículos dos herbívoros poderiam ser mais utilitários e robustos. O tráfego e as leis de trânsito também foram considerados, com faixas e zonas de estacionamento específicas para diferentes tamanhos de veículos, criando uma complexidade visual e logística que enriqueceu o mundo.
A contribuição de J Mays foi fundamental para enraizar os veículos de Zootopia em uma realidade plausível, apesar da fantasia inerente ao universo. Ele ajudou a criar um sistema coerente que permitia a coexistência de veículos de todas as formas e tamanhos, reforçando a mensagem central do filme sobre a coexistência na diversidade. Ao invés de serem meros adereços, os carros em “Zootopia” tornaram-se personagens em si, contadores de histórias que aprofundavam a imersão do público em uma das cidades animadas mais ricamente detalhadas já criadas. Esse nível de atenção aos detalhes é o que eleva “Zootopia” de um simples desenho animado para uma obra-prima de construção de mundo.