A Nissan, outrora um dos pilares da indústria automotiva global, encontra-se em um período de profunda reestruturação, culminando na venda de mais uma de suas fábricas para a fabricante chinesa Chery e na dolorosa decisão de demitir 20 mil funcionários. Este movimento não é um incidente isolado, mas sim um eco de uma estratégia já observada na Espanha, onde instalações da marca japonesa também foram assumidas por empresas chinesas, sinalizando uma mudança sísmica no panorama automotivo mundial.
A crise da Nissan tem raízes profundas, exacerbadas por anos de má gestão, investimentos questionáveis e uma lenta adaptação às demandas do mercado por veículos elétricos e tecnologias autônomas. A empresa tem reportado perdas significativas e uma queda consistente nas vendas globais, forçando uma reavaliação drástica de suas operações e portfólio. A venda de ativos e a redução massiva da força de trabalho são medidas desesperadas para tentar recuperar a lucratividade e garantir sua sobrevivência a longo prazo. As 20 mil demissões representam um custo humano imenso, afetando milhares de famílias e comunidades que dependiam dos empregos na montadora. É um golpe severo que reflete a intensidade da pressão competitiva e a velocidade das transformações tecnológicas na indústria.
A repetição deste cenário, com uma fábrica da Nissan sendo adquirida pela Chery, remete diretamente ao que aconteceu na Espanha. Em 2020, a Nissan anunciou o fechamento de sua fábrica em Barcelona, um complexo industrial que empregava milhares de pessoas e era vital para a economia local. Após intensas negociações e buscas por um novo operador, a planta foi eventualmente assumida por um consórcio liderado pela Ebro-EV Motors, com a Chery International desempenhando um papel crucial na reindustrialização do local para a produção de veículos elétricos. Este precedente estabeleceu um modelo: ativos “problemáticos” de montadoras tradicionais ocidentais se tornam oportunidades de expansão para fabricantes chinesas ávidas por capacidade produtiva, know-how e acesso a novos mercados.
Para a Chery, a aquisição de uma fábrica da Nissan representa um avanço estratégico significativo. A empresa chinesa, que já possui uma forte presença em mercados emergentes e está em plena expansão global, ganha acesso instantâneo a uma infraestrutura de produção moderna, linhas de montagem estabelecidas e, potencialmente, mão de obra qualificada. Isso acelera sua capacidade de produção e distribuição, permitindo-lhe consolidar sua posição em mercados-chave e competir de forma mais eficaz com marcas ocidentais e japonesas. Além disso, a absorção dessas instalações ajuda a Chery a contornar barreiras comerciais e a fortalecer sua pegada internacional, um objetivo central para muitas montadoras chinesas que buscam se tornar líderes globais.
O que estamos testemunhando é uma reconfiguração da paisagem automotiva global. Montadoras tradicionais como a Nissan, que dominaram o cenário por décadas, lutam para se adaptar a um futuro elétrico e digital, enquanto empresas chinesas, muitas vezes ágeis e com forte apoio governamental, capitalizam sobre essas dificuldades. A venda de fábricas e as demissões em massa sublinham a brutalidade dessa transição e a urgência para as marcas legadas de se reinventarem. O destino da Nissan e de seus funcionários, assim como o ressurgimento de suas antigas instalações sob nova gestão chinesa, servem como um poderoso lembrete de que no mundo automotivo de hoje, a adaptabilidade e a inovação não são mais opções, mas sim requisitos inegociáveis para a sobrevivência.