Com a Ford e a Hyundai sendo atualmente as únicas marcas a competir no segmento de picapes compactas nos Estados Unidos, a especulação cresceu sobre a possibilidade de a Ram trazer a Rampage para o mercado norte-americano, especialmente dado o forte desempenho do modelo no Brasil. A MoparInsider abordou a questão diretamente com o CEO da Ram, Tim Kuniskis, que, embora reconheça o apelo e o sucesso da Rampage, apontou para um grande obstáculo que impede a sua chegada imediata aos EUA.
Kuniskis expressou um claro desejo de ter uma picape compacta no portfólio da Ram na América do Norte, afirmando que a marca entende a necessidade e o interesse do consumidor por um veículo desse tipo. No entanto, ele enfatizou que a adaptação da Rampage, tal como é vendida no Brasil, para o mercado dos EUA é um desafio muito mais complexo do que simplesmente “colocar rodas e vender”. O principal problema reside nas rigorosas regulamentações e nos padrões de homologação norte-americanos, que diferem significativamente dos requisitos brasileiros.
Primeiramente, a segurança veicular é uma preocupação primordial. Os testes de colisão e os padrões de segurança dos EUA são alguns dos mais exigentes do mundo, e a Rampage precisaria de uma reengenharia substancial para atender a esses critérios. Isso incluiria modificações na estrutura do chassi, nos sistemas de airbags e em outras características de segurança passiva e ativa. Tais alterações são dispendiosas e demoradas, podendo exigir um redesenho significativo de componentes críticos.
Em segundo lugar, as regulamentações de emissões são outro fator crucial. Os padrões ambientais nos EUA são extremamente rigorosos, especialmente em estados como a Califórnia, que muitas vezes estabelecem suas próprias regras. O motor e o sistema de exaustão da Rampage teriam que ser completamente revisados para cumprir essas normas, o que poderia impactar o custo, o desempenho e a complexidade do powertrain.
Além das questões de homologação, há o “Imposto do Frango” (Chicken Tax), uma tarifa de 25% sobre picapes leves importadas para os EUA. Se a Rampage fosse fabricada no Brasil e importada, essa taxa a tornaria consideravelmente mais cara e, portanto, menos competitiva em um segmento onde o preço é um fator decisivo. Para contornar isso, a Ram teria que considerar a produção da Rampage nos EUA, o que implicaria em um investimento maciço em uma nova fábrica ou na readequação de uma existente, adicionando outra camada de complexidade e custo ao projeto.
Kuniskis também ponderou sobre o posicionamento da marca. A Ram é tradicionalmente conhecida por suas picapes grandes e robustas, como a série Ram 1500. A introdução de uma picape unibody compacta poderia levantar questões sobre a coerência da marca, embora a bem-sucedida Ford Maverick tenha mostrado que existe um apetite por essas ofertas. A Ram teria que garantir que qualquer nova picape compacta mantenha o ethos de capacidade e durabilidade que os clientes esperam da marca.
Apesar desses desafios, a Ram continua a explorar opções. O sucesso da Ford Maverick e da Hyundai Santa Cruz demonstra que o mercado de picapes compactas é viável e em crescimento. A demanda por veículos mais eficientes em termos de combustível, que ainda oferecem a utilidade de uma caçamba, é inegável. Kuniskis e sua equipe estão analisando todas as possibilidades, incluindo a potencial utilização de uma das plataformas globais da Stellantis, como a STLA Large ou STLA Medium, para desenvolver uma picape compacta especificamente para o mercado norte-americano, que talvez nem se chame Rampage.
Em suma, embora o interesse em trazer a Rampage para os EUA seja grande, e a Ram reconheça a oportunidade, os obstáculos regulatórios, os custos de reengenharia, as questões de importação e o investimento em produção local representam um “grande problema” que exige uma análise estratégica cuidadosa e um plano de negócios robusto antes que qualquer decisão final seja tomada. Não é uma questão de “se”, mas de “como” e “quando” a Ram entrará no segmento de picapes compactas nos EUA.