A cena é comum em postos de combustível: o frentista ou o próprio motorista tenta espremer cada gota de gasolina no tanque, ignorando o primeiro clique automático da bomba e continuando a abastecer até o limite do bucal. Embora pareça uma forma de otimizar o abastecimento e evitar paradas frequentes, essa prática aparentemente inofensiva pode gerar danos significativos a um componente crucial do seu veículo e, consequentemente, ao meio ambiente e à sua saúde. Estamos falando do cânister.
O cânister, ou sistema de controle de emissões evaporativas (EVAP), é uma peça vital no complexo quebra-cabeça dos sistemas antipoluição dos veículos modernos. Sua função primordial é capturar e armazenar os vapores de combustível que naturalmente se formam dentro do tanque, impedindo que eles sejam liberados diretamente para a atmosfera. Esses vapores, ricos em hidrocarbonetos, são substâncias poluentes que contribuem para a formação do ozônio troposférico (poluição fotoquímica) e podem ser nocivos à saúde humana se inalados em grandes quantidades, afetando o sistema respiratório.
O coração do cânister é um filtro de carvão ativado. Este material poroso possui uma capacidade impressionante de adsorver os vapores de combustível. Quando o motor está desligado, os vapores migram do tanque para o cânister e ficam retidos no carvão. Quando o motor é ligado e atinge a temperatura operacional, a unidade de controle eletrônico (ECU) do veículo abre uma válvula de purga, permitindo que o ar ambiente seja puxado através do cânister. Esse ar “limpa” o carvão, levando os vapores de combustível para o coletor de admissão do motor, onde são queimados durante o processo de combustão, em vez de serem dissipados no ar. É um ciclo eficiente e ecologicamente responsável.
No entanto, o cânister foi projetado para lidar apenas com vapores, não com combustível líquido. Abastecer “até a boca”, ou seja, além do ponto em que a bomba desliga automaticamente, força o combustível líquido a entrar na tubulação de ventilação do tanque e, em muitos casos, a inundar o cânister. Quando o carvão ativado é saturado com combustível líquido, sua capacidade de adsorção é drasticamente reduzida ou totalmente comprometida. O carvão pode até mesmo se desintegrar, e as partículas resultantes podem obstruir as mangueiras e válvulas do sistema EVAP.
As consequências de um cânister danificado vão além da simples emissão de poluentes. O motorista pode começar a perceber uma série de problemas:
1. **Luz de verificação do motor (Check Engine Light) acesa:** Este é um dos sinais mais comuns, pois o sistema EVAP é monitorado pela ECU, e uma falha nele ativará o aviso.
2. **Dificuldade para ligar o carro após o abastecimento:** Se o cânister estiver inundado, a pressão no tanque pode não ser adequadamente gerenciada, dificultando a partida.
3. **Cheiro de combustível:** A incapacidade de conter os vapores resulta em um odor perceptível de gasolina.
4. **Redução da eficiência de combustível:** Embora pareça contraditório, um sistema EVAP comprometido pode afetar o desempenho do motor e o consumo, já que o controle da mistura ar-combustível é influenciado.
5. **Falha na inspeção veicular:** Em locais onde há inspeção de emissões, um cânister inoperante certamente resultará em reprovação.
Para evitar esses transtornos e garantir a longevidade do seu veículo, a solução é simples: pare de abastecer assim que a bomba de combustível desligar automaticamente. Este “clique” indica que o tanque atingiu o nível ideal, deixando um pequeno espaço para a expansão do combustível (que varia de volume com a temperatura) e garantindo que o cânister receba apenas os vapores para os quais foi projetado. Pequenas ações, como essa, não só prolongam a vida útil de componentes importantes do seu carro, mas também contribuem para um meio ambiente mais limpo e para a saúde de todos.