As recentes alterações no processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) em São Paulo, que retiraram a baliza do exame prático, geraram um debate intenso e revelaram uma atitude surpreendente entre os futuros motoristas. O que antes era uma fonte de pânico e um obstáculo temido, transformou-se para muitos em uma questão de responsabilidade e consciência, levando-os a optar por continuar o treinamento da manobra.
O programa Fantástico destacou o cenário nas autoescolas, onde alunos, mesmo sem a obrigatoriedade de executar a baliza na prova, estão solicitando a manutenção das aulas. A jovem Ana Luisa Ferrario, estudante de Medicina e próxima de seu exame, exemplifica essa postura. Para ela, negligenciar o treino seria um risco inaceitável no dia a dia. “Mesmo que eu não tenha que fazer na prova, é muito importante porque no dia a dia eu vou precisar saber fazer”, afirmou Ana, reforçando a percepção de que a habilidade vai além da avaliação formal.
Essa visão é compartilhada por profissionais da área. Anna Clara Rocha Maia, psicóloga, critica a exclusão da baliza do exame. Embora reconheça que a reformulação mais ampla do Detran vise facilitar o acesso financeiro à CNH, ela argumenta que a baliza é intrínseca ao aprendizado de dirigir. “Essa em específica da baliza eu acho que faz parte de aprender a dirigir, então eu não vejo porque ela mudar também”, pontua Anna Clara.
A decisão do Detran integra uma reformulação mais abrangente, anunciada pelo governo federal, com o objetivo de ampliar o acesso à CNH. Outras medidas incluem a oferta de aulas teóricas gratuitas e online, além do fim da obrigatoriedade de contratar uma autoescola, visando a acessibilidade para uma parcela maior da população que antes não tinha esse benefício.
No entanto, a retirada da baliza do exame é o ponto mais polêmico. Especialistas ouvidos pelo Fantástico alertam para os perigos dessa medida. Eles defendem que a manobra de estacionar o veículo em paralelo é muito mais do que apenas “encaixar” o carro. Ela é fundamental para desenvolver uma série de habilidades essenciais no trânsito das grandes cidades, como a noção de espaço, o domínio preciso do veículo, o controle da embreagem e a atenção ao entorno. A preocupação é que a falta de proficiência nessa manobra possa não apenas comprometer a segurança, mas também gerar congestionamentos. “Se alguém ficar muito tempo para fazer uma manobra, isso vai produzir um impacto no sistema viário e gerar congestionamento”, alertou um especialista.
Em contrapartida, o governo federal justifica a mudança afirmando que seu objetivo é avaliar a “capacidade real de dirigir” do candidato, e não uma manobra isolada que, segundo a gestão, pode ser excessivamente treinada apenas para fins de aprovação no exame.
Apesar da controvérsia, os primeiros impactos da mudança revelam um aumento modesto na taxa de aprovação: apenas 2% na primeira semana sem a baliza, segundo dados do Detran. Diante desse cenário e das críticas, a Associação das Autoescolas de São Paulo já manifestou sua intenção de recorrer na Justiça contra as alterações, classificando-as como um “retrocesso” e uma “falta de responsabilidade”.
Enquanto o debate entre autoridades e especialistas se aprofunda, a atitude de muitos candidatos reflete a prioridade pela segurança e pela competência prática. “Estacionar bem o carro é uma das etapas de aprender a dirigir. Não quero ter que aprender na hora; quero aprender antes”, disse uma aluna em treinamento, reforçando a ideia de que o aprendizado integral e seguro deve prevalecer sobre a simples conformidade com as regras do exame. A lição que emerge é clara: a real habilidade de dirigir transcende as exigências formais, e a baliza, para muitos, continua sendo um pilar fundamental dessa formação.