Mais de três décadas no epicentro dos Salões do Automóvel são um tesouro de memórias que transcendem o brilho das carrocerias e o glamour dos lançamentos. Longe dos flashes e da multidão, nos bastidores frenéticos, pulsa um universo de histórias inusitadas, estratégias improvisadas e episódios verdadeiramente marcantes. Essa jornada pelos labirintos da logística e da paixão automotiva revela o esforço colossal, a criatividade e a resiliência que transformam um espaço vazio numa vitrine de sonhos sobre rodas.
Era comum a adrenalina pré-evento. Lembro-me de um ano em que um protótipo valioso, recém-chegado de outro continente, apresentou um pequeno arranhão na pintura durante o transporte. Pânico generalizado! Com o tempo correndo e a inauguração iminente, a solução veio de um membro da equipe com um talento oculto para retoques automotivos, utilizando um kit de pintura de modelismo e horas de trabalho minucioso sob luzes provisórias. O carro estava impecável na abertura, e ninguém notou o milagre. Outra vez, um convidado ilustre ficou preso no elevador de serviço, quase perdendo seu discurso de abertura. A equipe de segurança e a organização trabalharam em perfeita sincronia para garantir que ele chegasse a tempo, com um sorriso forçado e uma história para contar.
A improvisação é a alma dos bastidores. Um dos maiores desafios era lidar com a falta de peças ou componentes essenciais que, por vezes, ficavam retidos na alfândega ou simplesmente não chegavam a tempo. Houve um incidente em que um carro conceito crucial para a demonstração final estava com um problema elétrico persistente. Com apenas algumas horas antes da imprensa chegar, a equipe técnica, sem acesso a ferramentas específicas, recorreu a um engenhoso sistema de cabos emprestados de outros estandes e algumas “gambiaras” que, milagrosamente, fizeram o carro funcionar perfeitamente para a demonstração. A criatividade, muitas vezes sob imensa pressão, era a moeda corrente. Outro momento memorável foi a reorganização de um estande inteiro em poucas horas, após um competidor direto lançar um modelo inesperado, exigindo uma mudança estratégica na apresentação para não perder o impacto. A equipe virou a noite, movendo veículos e displays, e a nova disposição foi um sucesso.
Além dos percalços, há as histórias de triunfo e camaradagem. Lembro-me do lançamento de um carro que mudou o mercado, vendo o entusiasmo nos olhos dos designers e engenheiros que trabalharam anos no projeto. As negociações nos lounges VIP, onde acordos milionários eram selados com um aperto de mão, também faziam parte do espetáculo. Mas, talvez, o mais marcante seja a sensação de comunidade. Pessoas de diferentes montadoras, agências e fornecedores, todos com o mesmo objetivo: criar uma experiência inesquecível para o público. As amizades forjadas em madrugadas de trabalho intenso, a ajuda mútua entre equipes rivais e o orgulho compartilhado ao ver as portas do salão se abrirem e o público maravilhado entrar. Esses momentos, de pura paixão automotiva e dedicação, são o verdadeiro legado de mais de 30 anos nos Salões. Eles não são apenas sobre carros; são sobre as pessoas que os trazem à vida.