Chery mira produção local de luxo, sem a CAOA

A gigante chinesa Chery, uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo, está redefinindo sua estratégia para o mercado brasileiro. Após anos de atuação por meio de parcerias locais, a empresa agora demonstra um interesse crescente e explícito em consolidar sua presença com uma abordagem mais independente, especialmente no segmento de luxo. A Chery já importa e comercializa no Brasil modelos de suas marcas premium Omoda e Jaecoo, e prepara o lançamento da Jetour, mas o verdadeiro objetivo parece ser a fabricação local, visando maior controle e competitividade.

Atualmente, o Grupo Chery está lançando no Brasil suas submarcas de alto padrão, Omoda e Jaecoo. A Omoda se posiciona como uma marca com foco em design arrojado e tecnologia avançada, mirando um público jovem e urbano que busca estilo e conectividade. O Omoda C5, por exemplo, é um SUV cupê que exemplifica essa proposta. Já a Jaecoo entra no segmento de SUVs premium com uma pegada mais robusta e aventureira, ideal para quem busca performance e capacidade off-road, sem abrir mão do luxo e do conforto. O Jaecoo J7 e J8 são os representantes dessa linha. Em breve, a família será complementada pela Jetour, que deve oferecer veículos de maior porte e foco familiar, com acabamento refinado e bom custo-benefício.

A estratégia de importar esses modelos é uma etapa inicial para testar o mercado e construir a imagem das marcas. No entanto, a ambição da Chery vai além. A empresa não esconde seu forte interesse em estabelecer uma linha de produção local para esses veículos de luxo. A fabricação no Brasil traria uma série de vantagens cruciais. Primeiramente, haveria uma significativa redução nos custos de importação, como o Imposto de Importação, IPI, PIS e Cofins, que oneram substancialmente o preço final dos veículos importados. Essa economia permitiria à Chery oferecer preços mais competitivos ou aumentar suas margens de lucro, fortalecendo a posição das marcas Omoda, Jaecoo e Jetour no concorrido segmento premium.

Além dos benefícios fiscais, a produção local possibilitaria uma adaptação mais ágil às demandas e particularidades do consumidor brasileiro. Isso inclui a possibilidade de customizar veículos para o gosto local, desenvolver fornecedores nacionais, e ter um tempo de resposta mais rápido para o reabastecimento de estoque e peças de reposição. Uma fábrica no Brasil também seria um sinal claro do compromisso de longo prazo da Chery com o mercado nacional, o que pode impulsionar a confiança dos consumidores e a valorização da marca. Historicamente, montadoras com produção local são vistas com maior credibilidade e engajamento.

O desejo de fabricar localmente também pode ser interpretado no contexto da relação da Chery com a CAOA no Brasil. As marcas Omoda e Jaecoo, assim como a futura Jetour, estão sendo introduzidas no mercado brasileiro diretamente pela Chery Internacional, por meio de sua subsidiária Chery Brasil, sem a participação da CAOA, que é parceira na joint-venture CAOA Chery, responsável pelos modelos Arrizo, Tiggo e iCar. Essa dualidade de operações sugere que a Chery busca um controle mais direto sobre suas operações premium, pavimentando o caminho para uma potencial produção local que não necessariamente envolva seu parceiro atual para esses segmentos específicos.

É importante notar que a decisão de instalar uma fábrica envolve um investimento considerável e desafios logísticos e de mão de obra qualificada. Contudo, o tamanho do mercado automotivo brasileiro e seu potencial de crescimento, especialmente no segmento premium, justificam esse tipo de movimento estratégico por parte de uma gigante global como a Chery. Ao mirar a produção local de suas marcas de luxo, a Chery busca não apenas otimizar custos, mas também se estabelecer como um player independente e de peso no cenário automotivo brasileiro, consolidando sua presença e expandindo sua fatia de mercado em diversas categorias, desde o segmento de entrada até o luxo. Este é um passo ousado que demonstra a seriedade das ambições da montadora chinesa no país.