O programa “Carro Sustentável” do governo federal chegou com a promessa de revitalizar o mercado automotivo nacional, aliviar o bolso do consumidor e, ao mesmo tempo, impulsionar a produção de veículos mais eficientes e menos poluentes. Através de isenções fiscais, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), a iniciativa visava tornar carros populares mais acessíveis e estimular a transição para uma frota mais verde. No entanto, uma das ausências mais notáveis na lista de veículos contemplados gerou surpresa e questionamentos: a do Citroën C3, um dos hatches compactos mais vendidos do país.
À primeira vista, o Citroën C3 com seu motor 1.0 parece encaixar-se perfeitamente nos critérios implícitos do programa. Conhecido por sua economia de combustível e seu posicionamento como um veículo de entrada, acessível e prático para o dia a dia urbano, o hatch francês poderia ter sido um forte candidato a se beneficiar da isenção de IPI. O motor 1.0 naturalmente sugere um consumo mais contido e, consequentemente, menores emissões, alinhando-se com a pegada ambiental que o programa buscava promover. Além disso, seu preço competitivo já o tornava uma opção atraente para muitos brasileiros, e a redução de impostos poderia solidificar ainda mais sua posição no mercado.
Contudo, para a decepção de muitos potenciais compradores e do próprio fabricante, o Citroën C3 não foi incluído na lista de modelos beneficiados. Essa exclusão levanta uma série de indagações sobre os critérios exatos que o governo utilizou para determinar a elegibilidade dos veículos. Se a economia de combustível e a motorização de baixa cilindrada eram fatores-chave, por que um modelo que se destaca nessas características foi deixado de lado?
A resposta reside provavelmente na complexidade dos critérios estabelecidos para o “Carro Sustentável”, que vão muito além da simples cilindrada do motor. É plausível que o programa tenha considerado uma série de outros indicadores de sustentabilidade e eficiência. Entre eles, o índice de eficiência energética, medido pelo Inmetro no âmbito do programa Conpet, é um forte candidato. Mesmo um motor 1.0 pode ter diferentes níveis de eficiência dependendo da tecnologia empregada no veículo como um todo – aerodinâmica, peso do carro, calibração da transmissão, e outros sistemas embarcados. Pode ser que o C3, apesar de econômico, não tenha atingido um patamar de classificação energética considerado “excelente” o suficiente para os requisitos do programa, em comparação com outros modelos 1.0 que foram contemplados.
Outro fator crucial pode ser o índice de nacionalização dos componentes. Programas de incentivo fiscal frequentemente priorizam veículos com uma alta porcentagem de peças e mão de obra produzidas localmente, visando fortalecer a indústria nacional. Embora o C3 seja fabricado no Brasil, é possível que seu índice de nacionalização não tenha atingido o percentual mínimo exigido, ou que outros concorrentes tivessem um índice superior.
Adicionalmente, requisitos de segurança e emissões mais rigorosas do que o padrão obrigatório podem ter sido um diferencial. Embora o programa se intitule “Carro Sustentável”, a sustentabilidade pode englobar não apenas a eficiência energética, mas também a durabilidade, a segurança dos ocupantes e a pegada de carbono global do ciclo de vida do veículo.
A não inclusão do Citroën C3 no programa “Carro Sustentável” representa um revés para o modelo no competitivo mercado brasileiro. Sem o incentivo fiscal, ele perde uma vantagem importante em relação aos seus concorrentes diretos que foram beneficiados, podendo ter seu apelo de custo-benefício diluído. Para os consumidores, a decisão significa uma opção a menos de carro popular com preço reduzido, enquanto para a indústria, reforça a necessidade de total alinhamento com os (muitas vezes complexos e nem sempre totalmente transparentes) critérios governamentais. A situação do C3 sublinha que a “sustentabilidade” e a “eficiência” para fins de programas governamentais podem ser definidas por métricas bastante específicas, que vão muito além da cilindrada do motor.