A notícia de que o Citroën C3, um hatch compacto conhecido por sua economia e motorização 1.0, não foi incluído no programa “Carro Sustentável” (ou “Carro Popular”) do governo gerou surpresa e questionamentos. Afinal, à primeira vista, o modelo francês parecia se encaixar perfeitamente nos critérios de um programa desenhado para baratear veículos e estimular o mercado nacional. Mas quais seriam os motivos por trás dessa exclusão, dado que o C3 é fabricado no Brasil e se posiciona como uma opção acessível?
O programa “Carro Sustentável”, lançado com o objetivo de impulsionar as vendas do setor automotivo e tornar veículos mais acessíveis para a população, oferecia reduções significativas nos impostos federais, como o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e, em alguns casos, o PIS/Cofins. As isenções e descontos eram escalonados e dependiam de uma combinação de fatores: o preço final do veículo, o consumo de combustível (eficiência energética), o nível de conteúdo nacional e, em algumas iterações, até mesmo critérios de segurança e emissões. A meta era beneficiar modelos de entrada, geralmente com motorização 1.0, que representam uma fatia considerável do mercado e são o primeiro passo para muitos consumidores na aquisição de um carro zero-quilômetro.
O Citroën C3, desde seu relançamento em uma nova plataforma, tem sido elogiado por sua proposta de valor. Equipado com um motor 1.0 naturalmente aspirado (o mesmo de outros modelos populares da Stellantis), ele se destaca pela economia de combustível, espaço interno razoável e um design que o diferencia dos concorrentes diretos. Seu preço de entrada o coloca em disputa com hatches como Fiat Mobi, Renault Kwid e algumas versões do Fiat Argo e Hyundai HB20, muitos dos quais foram contemplados pelos incentivos governamentais. A ausência do C3 na lista de beneficiados, portanto, causou estranheza, levando a especulações sobre os detalhes técnicos e as letras miúdas do programa.
Uma das principais hipóteses para a exclusão do C3 reside nos critérios de preço e escalonamento dos benefícios. Embora o modelo tenha versões de entrada competitivas, é possível que a média ponderada de seus preços ou o posicionamento de suas configurações mais vendidas o colocasse ligeiramente acima de um teto de preço específico que o governo estipulou para a concessão dos maiores incentivos. Programas como este frequentemente têm faixas de desconto que diminuem à medida que o preço do veículo aumenta, e o C3 pode ter ficado em uma faixa onde o benefício era marginal ou inexistente para suas versões mais procuradas.
Outro fator a ser considerado, embora menos provável para um carro de produção nacional, é o índice de nacionalização de componentes. Embora o C3 seja fabricado no Brasil, as regras do programa poderiam ser extremamente rigorosas quanto à percentagem de peças e componentes produzidos no país para que o veículo se qualificasse para a isenção máxima. Contudo, essa costuma ser uma exigência mais comum para veículos importados ou de baixo volume.
A eficiência energética, medida pelo programa Inmetro/Conpet, também era um pilar importante. Embora o motor 1.0 do C3 seja reconhecidamente econômico, a classificação A na categoria, que garantia os maiores benefícios, poderia ter sido alcançada por um número limitado de modelos, e o C3, apesar de bom, pode não ter atingido o topo absoluto da lista, crucial para as isenções mais polpudas. Além disso, o foco do programa poderia ter sido mais direcionado a modelos com o *menor* preço de partida absoluto, visando um impacto mais direto nas vendas de veículos de entrada.
Finalmente, é possível que a decisão envolvesse uma combinação desses fatores, ou até mesmo estratégias comerciais da própria montadora. Em alguns casos, as empresas podem optar por não solicitar o benefício para certas versões ou modelos, ou podem não ter conseguido cumprir todos os requisitos burocráticos e prazos estabelecidos pelo governo, embora isso seja menos comum quando há um benefício tão claro.
A não contemplação do Citroën C3 pelo programa “Carro Sustentável” é um lembrete da complexidade das políticas de incentivo governamentais. Mesmo um veículo que, na teoria, se alinha com os objetivos de economia e acessibilidade, pode ficar de fora devido a detalhes técnicos, faixas de preço ou critérios específicos que nem sempre são óbvios para o público em geral. Para o consumidor, significa que a pesquisa de mercado continua sendo essencial, independentemente dos incentivos governamentais.