Uma pesquisa surpreendente realizada pela Associação Alemã de Seguradoras (GDV) lançou luz sobre uma lacuna crítica nos sistemas de segurança veicular, particularmente nos pré-tensionadores dos cintos de segurança. O estudo revelou que, em certas condições, colisões a uma velocidade relativamente baixa de 35 km/h podem ser, de facto, mais perigosas para os ocupantes do veículo do que impactos a 50 km/h. Esta descoberta desafia a intuição comum e aponta para uma falha na forma como os veículos são projetados e testados para a segurança.
A raiz do problema, segundo a pesquisa, reside na otimização dos pré-tensionadores dos cintos de segurança. Estes dispositivos vitais, concebidos para apertar o cinto milissegundos antes de uma colisão para minimizar o movimento do corpo do ocupante, são maioritariamente calibrados e testados de acordo com os parâmetros estabelecidos por organismos como o Euro NCAP. As normas do Euro NCAP focam-se predominantemente em cenários de impacto frontal a 64 km/h (com sobreposição) e impactos laterais, que representam uma fatia significativa, mas não exaustiva, dos acidentes reais.
O estudo da GDV simulou uma série de colisões e observou o comportamento dos sistemas de segurança. O que se descobriu é que em impactos a 35 km/h, dependendo da rigidez do veículo e do obstáculo, o ‘pulso de colisão’ pode ser excecionalmente curto e agudo. O pulso de colisão refere-se à taxa de desaceleração do veículo. Num impacto a 35 km/h contra um objeto muito rígido, a desaceleração pode ser extremamente rápida e intensa. Esta rapidez pode limitar o tempo disponível para os pré-tensionadores atuarem plenamente ou, em alguns casos, pode até levá-los a não se ativarem de forma ótima, pois os sensores podem não reconhecer o perfil do impacto como uma “colisão de alta energia” para a qual foram programados.
Por outro lado, numa colisão a 50 km/h, especialmente aquelas que envolvem mais deformação do veículo ou do obstáculo, o pulso de colisão pode ser mais longo e, paradoxalmente, menos abrupto no seu pico. Embora a energia total do impacto seja maior, a forma como essa energia é dissipada ao longo do tempo permite que os pré-tensionadores e outros sistemas de retenção tenham um período de tempo mais adequado para funcionar conforme o previsto. O sistema eletrónico tem mais ‘tempo’ para detetar o impacto, calcular a gravidade e ativar os pré-tensionadores e airbags eficazmente.
Isto significa que os veículos, embora obtenham classificações elevadas no Euro NCAP, podem apresentar vulnerabilidades em situações de acidente comuns no dia a dia. Colisões urbanas, por exemplo, ocorrem frequentemente em velocidades mais baixas (abaixo de 50 km/h) e podem envolver uma gama complexa de ângulos e rigidezes de impacto que não são totalmente cobertos pelos testes padronizados. Nesses cenários, a proteção dos ocupantes pode ser comprometida, resultando em lesões que os ocupantes esperariam que os seus sistemas de segurança de última geração prevenissem.
As implicações são sérias. Um pré-tensionador que não atua de forma ideal pode significar que o corpo do ocupante avança mais do que o desejável, aumentando o risco de lesões na cabeça, pescoço e peito, mesmo em colisões de “baixa velocidade”. A pesquisa alemã serve como um alerta crucial para a indústria automóvel e para os organismos de teste de segurança. É imperativo que os protocolos de teste sejam expandidos para incluir uma gama mais ampla de perfis de colisão da vida real, especialmente aqueles com pulsos de colisão agudos e rápidos, independentemente da velocidade absoluta.
A segurança veicular não pode ser uma questão de otimização para testes específicos. Deve ser um compromisso abrangente para proteger os ocupantes em todas as situações de acidente plausíveis. A GDV sugere que, para além dos testes atuais, sejam considerados cenários que espelhem a diversidade dos acidentes urbanos, garantindo que os pré-tensionadores e outros sistemas de segurança funcionem de forma robusta em todas as velocidades e perfis de impacto.