Concessionária Lecar própria, mas sem carros da marca

O cenário automotivo, em constante evolução e especialmente efervescente no segmento de veículos elétricos, é palco para o surgimento de novas fabricantes com promessas audaciosas de inovação. Contudo, o caso da Lecar, uma empresa brasileira que anunciou com grande entusiasmo seu próprio carro elétrico, o Model 01, tem se desenrolado de uma maneira peculiar, gerando questionamentos sobre seu futuro e a concretização de seus planos ambiciosos.

Um dos pontos mais notáveis e, para muitos, preocupantes, reside na estratégia de comunicação de uma das concessionárias da Lecar. A página oficial da unidade no Instagram, que em tese deveria ser uma vitrine digital para o aguardado Model 01, transformou-se em um extenso catálogo de veículos usados. Diariamente, para a surpresa e, por vezes, confusão dos seguidores e potenciais clientes, são destacados modelos de outras marcas – SUVs, sedãs e picapes de fabricantes já estabelecidas no mercado. Essa guinada drástica na comunicação visual e comercial da concessionária contrasta fortemente com a proposta inicial da Lecar de introduzir um carro elétrico revolucionário no cenário automotivo nacional.

A Lecar, em seus anúncios iniciais, prometeu o Model 01 como um veículo elétrico de alto desempenho e design moderno, com planos de produção em uma fábrica em Camaçari, Bahia, e uma rede de concessionárias para atender os consumidores. Falava-se de tecnologia de ponta, autonomia competitiva e um compromisso com a sustentabilidade, posicionando a empresa como uma alternativa brasileira relevante no setor de eletrificação automotiva. O burburinho em torno do projeto era considerável, com muitos curiosos para ver como uma startup nacional se destacaria em um mercado tão competitivo.

No entanto, à medida que o tempo avança, informações concretas sobre o progresso da Lecar têm sido escassas. Detalhes sobre o início da produção em massa do Model 01, a validação de protótipos em testes de rua, o cronograma de entregas ou até mesmo atualizações mais substanciais sobre o desenvolvimento do produto simplesmente não vêm a público de forma consistente e transparente. Essa lacuna de comunicação oficial por parte da fabricante tem deixado um vácuo preenchido, ironicamente, pela venda de carros usados de terceiros nas plataformas que deveriam promover sua própria frota.

A situação da página da concessionária no Instagram não é um mero detalhe; ela é um sintoma preocupante da incerteza que paira sobre a Lecar. Clientes que depositaram esperança na marca, ou mesmo aqueles que apenas acompanhavam o desenvolvimento com interesse, se veem diante de uma fachada comercial que não reflete a identidade ou o produto principal da empresa. A ausência de conteúdo relacionado ao Model 01, em favor de veículos de concorrentes, corrói a credibilidade e a percepção de seriedade da fabricante.

Além disso, a falta de atualizações sobre o futuro da Lecar levanta dúvidas cruciais: A produção do Model 01 está atrasada? Houve mudanças significativas nos planos originais? A empresa enfrenta dificuldades financeiras ou de engenharia? Sem respostas claras, o entusiasmo inicial tende a se converter em ceticismo. O mercado automotivo é implacável com empresas que não conseguem cumprir suas promessas ou que falham em manter uma comunicação robusta com seu público e stakeholders.

Para uma startup automotiva, especialmente no segmento de EVs, a transparência e a capacidade de demonstrar progresso são fundamentais para construir confiança e atrair investimentos. A atual estratégia de comunicação, ou a aparente falta dela, contrasta fortemente com o dinamismo esperado de uma empresa que busca inovar. A Lecar precisa urgentemente esclarecer seu posicionamento, oferecer um cronograma realista e reafirmar seu compromisso com a entrega do Model 01, antes que a imagem de suas “concessionárias” se solidifique apenas como um mero revendedor de veículos de outras marcas. O tempo é crucial para reverter essa percepção e reconquistar a confiança do mercado.