A cerimônia de inauguração da nova fábrica da Great Wall Motor (GWM) em Iracemápolis, interior de São Paulo, marcou um momento significativo para a indústria automobilística brasileira e para a economia local. O evento, que contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente Geraldo Alckmin, sinaliza um forte investimento no setor de veículos elétricos e híbridos no país.
A GWM, uma das maiores montadoras chinesas, estabeleceu uma meta ambiciosa de produzir 30 mil veículos anuais até o final de 2026. Este volume será focado em modelos híbridos plug-in (PHEV) e elétricos, alinhando-se às tendências globais de mobilidade sustentável. O projeto também promete um impulso notável na geração de empregos: a empresa prevê criar mil postos de trabalho diretos até o fim de 2025. Atualmente, 700 vagas já foram preenchidas, com a expectativa de abertura de mais 300 nos próximos meses.
A chegada da GWM já provoca reflexos positivos em Iracemápolis, uma cidade com pouco mais de 20 mil habitantes. A expectativa de aquecimento nos negócios é palpável entre os empresários locais dos setores de comércio e serviços. Um exemplo disso é Claudinei Cesar Gross, proprietário de uma churrascaria, que, otimista, decidiu ampliar seu estabelecimento e já busca preencher novas vagas para atender à demanda crescente. Ele recorda o movimento próspero da época da Mercedes-Benz e espera um cenário ainda melhor com a nova montadora.
De forma similar, Vinícius Cunha, dono de uma escola de idiomas na cidade há quase oito anos, relata um aumento na procura por cursos de inglês, especialmente aqueles voltados para negócios. Profissionais que já trabalham na GWM ou buscam oportunidades na empresa têm procurado qualificações para aprimorar a comunicação em um ambiente corporativo globalizado. Cunha destaca a importância do domínio do inglês como uma ferramenta essencial para o sucesso em empresas internacionais.
O impacto da instalação da GWM em Iracemápolis foi analisado pelo economista Igor Vasconcelos Nogueira, professor de Gestão do Instituto Federal de São Paulo (IF-SP). Segundo ele, mesmo ocupando o espaço deixado pela antiga fábrica da Mercedes-Benz, a presença da GWM “tende a reconfigurar o mercado de trabalho e a base produtiva local”.
Entre os potenciais reflexos positivos, Nogueira aponta o aumento da renda e da ocupação, com um significativo “efeito multiplicador” – cada emprego direto pode induzir de um a dois empregos indiretos na cadeia de suprimentos e no consumo. Outros benefícios incluem a dinamização do comércio e dos serviços, a ampliação da base tributária municipal, investimentos em infraestrutura e logística, a qualificação profissional via parcerias com instituições de ensino, e a difusão tecnológica para fornecedores regionais.
No entanto, o economista também alerta para possíveis riscos e reflexos negativos. Estes podem incluir pressão sobre a moradia e os aluguéis, aumento do trânsito e da demanda por serviços públicos, elevação do custo de vida, um possível “crowding-out” (efeito deslocamento) de pequenos negócios devido à competição salarial, e uma maior dependência setorial, expondo a cidade aos ciclos da indústria automotiva. Questões ambientais como uso de água, emissões e resíduos também exigem atenção e mitigação rigorosa. Para Nogueira, o saldo geral tende a ser positivo, contanto que haja governança, contrapartidas e metas de emprego atreladas ao planejamento urbano, além de qualificação contínua e padrões ambientais estritos.
A GWM planeja investir um total de R$ 4 bilhões no Brasil até 2026, valor que inclui a operação da nova fábrica, e mais R$ 6 bilhões de 2027 a 2032. A empresa é a primeira a ser habilitada no programa federal de mobilidade verde (Mover), reforçando seu compromisso com a produção de veículos sustentáveis e com uma meta de 60% de conteúdo nacional até 2026.
Com uma atuação global em mais de 60 países, 70 mil funcionários e oito centros de P&D, a GWM é a maior empresa automotiva chinesa de capital 100% privado e a quarta maior fabricante mundial de picapes médias, liderando esse segmento na China por 24 anos.
A escolha de Iracemápolis não foi aleatória. A GWM adquiriu a antiga planta da Mercedes-Benz, que encerrou suas operações em dezembro de 2020 devido às condições de mercado e à pandemia de Covid-19. A compra incluiu um vasto terreno de 1,2 milhão de metros quadrados, todos os edifícios e equipamentos de produção, facilitando a rápida implantação e adaptação da nova montadora.