As montadoras chinesas consolidam sua presença no Brasil, um novo capítulo se inicia na indústria automotiva nacional. Empresas como Great Wall Motor (GWM) e BYD não apenas anunciaram investimentos bilionários, mas já operam suas fábricas, sinalizando uma aposta robusta no mercado sul-americano. Contudo, essa fase inicial de implantação tem sido acompanhada de desafios significativos e, em alguns casos, até de controvérsias, gerando questionamentos sobre a verdadeira extensão da produção local e o cumprimento de regras.
A GWM, por exemplo, assumiu a antiga planta da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP), onde planeja fabricar veículos híbridos e elétricos sob suas marcas Haval e Ora. O processo envolveu a adaptação da infraestrutura existente e a importação de componentes para a montagem inicial em regime CKD (Completely Knocked Down) ou SKD (Semi Knocked Down), um passo comum para novas operações. A meta é, progressivamente, aumentar o índice de nacionalização, envolvendo fornecedores locais e consolidando uma cadeia produtiva robusta.
Paralelamente, a BYD, gigante global de veículos elétricos e baterias, fez um movimento ainda mais audacioso ao adquirir o complexo industrial que pertencia à Ford em Camaçari (BA). Com planos ambiciosos, a BYD prevê a produção de carros elétricos e híbridos, além de ônibus e caminhões elétricos, e até mesmo uma fábrica de baterias. A promessa é de um investimento massivo e a criação de milhares de empregos, transformando a região em um polo de inovação em mobilidade elétrica.
No entanto, o “estágio inicial dos processos” a que se refere o cenário atual é crucial e, por vezes, delicado. A distinção entre “montagem” e “fabricação” plena é um ponto central. Muitas vezes, a produção inicial se baseia na importação de kits pré-fabricados, o que, embora gere empregos e movimente a economia, não se equipara à fabricação de componentes desde a base. Essa nuance pode levar a acusações de que as operações estariam mais próximas de uma linha de montagem de importados do que de uma fábrica com profundo enraizamento local. Tais questionamentos podem surgir no contexto de incentivos fiscais e programas governamentais que exigem um determinado percentual de conteúdo local. A pressão para atingir esses índices e a transparência sobre o processo são pontos de constante escrutínio.
As “acusações de fraude”, mencionadas no contexto, frequentemente giram em torno da interpretação e do cumprimento dessas exigências de nacionalização. Em um mercado tão competitivo e com subsídios envolvidos, qualquer percepção de desvio nas regras pode gerar atritos e desconfiança. É um desafio para as montadoras chinesas equilibrar a velocidade de implantação com a conformidade estrita às normas locais, especialmente em um ambiente regulatório complexo como o brasileiro.
Apesar desses percalços iniciais, a chegada e expansão das montadoras chinesas representam uma transformação significativa para o Brasil. Elas trazem consigo não apenas capital e empregos, mas também novas tecnologias, impulsionando a eletrificação da frota nacional e a competição no setor. A expectativa é que, superados os desafios da fase de largada e com o aumento progressivo da nacionalização, essas operações se consolidem, tornando o Brasil um hub estratégico para a produção de veículos de nova energia na América Latina. A longo prazo, isso pode significar mais opções para os consumidores, preços mais competitivos e um salto tecnológico para a indústria automotiva brasileira.