Há mais de uma década, quando a Tesla decidiu contornar as concessionárias franqueadas tradicionais e começou a vender seus veículos elétricos diretamente aos consumidores, deu início a uma batalha legal com o poderoso lobby das concessionárias de automóveis, uma disputa que se arrasta até os dias de hoje. Agora, é a vez da Rivian entrar em confronto. Na segunda-feira, a Rivian protocolou uma ação judicial, buscando o mesmo direito que a Tesla conseguiu em Ohio: vender seus veículos diretamente, sem a necessidade de intermediários.
A decisão da Tesla de vender diretamente foi revolucionária no setor automotivo. Tradicionalmente, os fabricantes confiam numa rede de concessionárias independentes para distribuir e vender seus produtos. Esse modelo, enraizado em leis estaduais muitas vezes datadas da era pós-Depressão, tinha como objetivo proteger os investimentos das concessionárias e garantir o acesso dos consumidores a serviços e garantias. No entanto, a Tesla argumentou que, como uma empresa focada em tecnologia e com um produto inovador (o carro elétrico), um modelo de vendas direto permitiria um controle maior sobre a experiência do cliente, a educação sobre a tecnologia e a manutenção de uma margem de lucro que não seria dividida com os revendedores.
Para empresas como Tesla e Rivian, que não possuem uma infraestrutura de vendas legada e estão construindo suas marcas do zero, o modelo de vendas diretas oferece inúmeras vantagens. Permite que a empresa controle toda a jornada de compra, desde a configuração online do veículo até a entrega e o serviço pós-venda. Isso se traduz numa experiência de compra simplificada, sem a negociação e a pressão que muitos consumidores associam às concessionárias tradicionais. Além disso, a eliminação de intermediários pode reduzir custos operacionais e, teoricamente, permitir que os fabricantes passem essas economias aos consumidores ou invistam mais em pesquisa e desenvolvimento.
Contudo, o lobby das concessionárias argumenta que as leis de franquia existentes são cruciais para a proteção do consumidor. Eles afirmam que as concessionárias locais fornecem um ponto de contato físico para vendas, serviços e recalls, além de estimular a concorrência de preços entre diferentes revendedores da mesma marca. As concessionárias também são grandes empregadores e contribuem significativamente para as economias locais através de impostos e salários. A ausência de uma rede de concessionárias, segundo eles, poderia deixar os consumidores sem recurso em caso de problemas com o fabricante, ou limitar as opções de financiamento e troca de veículos usados.
A batalha da Rivian em Ohio reflete o panorama legal complexo nos Estados Unidos. As leis que regulam a venda de veículos variam significativamente de estado para estado. Enquanto alguns estados, como Ohio (com certas restrições para a Tesla) e Michigan, concederam exceções ou alteraram suas leis para acomodar as vendas diretas de veículos elétricos, muitos outros permanecem intransigentes. A luta é frequentemente travada nos tribunais e nas legislaturas estaduais, onde o lobby das concessionárias exerce uma influência considerável.
O resultado da ação judicial da Rivian em Ohio pode ter implicações de longo alcance para a indústria automotiva. Se a Rivian for bem-sucedida, poderá abrir caminho para outras startups de veículos elétricos e até mesmo fabricantes estabelecidos que buscam explorar modelos de vendas diretas. A transição para veículos elétricos já está abalando o setor, e a redefinição do modelo de vendas e distribuição é outra fronteira fundamental dessa transformação. A questão central não é apenas como os carros são fabricados, mas também como são comprados e vendidos. É uma batalha entre a tradição e a inovação, entre o modelo de negócios estabelecido e as novas abordagens ditadas pelas tecnologias emergentes e as expectativas dos consumidores modernos. Independentemente do resultado em Ohio, a discussão sobre o futuro das vendas de automóveis diretas está longe de terminar, prometendo mais capítulos nesta saga legal e comercial.