Nos últimos anos, os motores 1.0 e 1.2 PureTech, amplamente utilizados em veículos de diversas marcas do grupo Stellantis, como Peugeot, Citroën e Opel, têm sido o centro de uma crescente polêmica relacionada à sua durabilidade e confiabilidade. O cerne da questão reside na concepção de sua correia de distribuição banhada a óleo, um design inovador que, infelizmente, se revelou uma fonte de problemas significativos para milhares de proprietários.
A engenharia por trás dos motores PureTech visava otimização de espaço, redução de atrito e melhor eficiência energética, ao posicionar a correia dentada dentro do cárter, imersa no óleo do motor. Embora essa solução pudesse, em teoria, prolongar a vida útil da correia por reduzir o desgaste abrasivo, na prática, levou a uma série de falhas inesperadas. O material da correia, em contato constante com o óleo (especialmente se o lubrificante não for o especificado ou se os intervalos de troca não forem rigorosamente seguidos), pode degradar-se prematuramente. Fragmentos dessa correia degradada se soltam e circulam pelo sistema de lubrificação do motor.
Esses pequenos detritos representam uma ameaça grave. Eles podem obstruir o filtro de óleo e, mais criticamente, as galerias de lubrificação, incluindo as que alimentam o turbocompressor e outras partes vitais do motor. A consequência direta é a falta de lubrificação adequada, levando a um desgaste acelerado de componentes internos, falha do turbocompressor, e em casos extremos, à completa avaria do motor. Os sintomas relatados pelos proprietários variam desde luzes de advertência no painel e ruídos anormais até perda de potência e, finalmente, a parada total do veículo.
Diante da magnitude do problema e do número crescente de reclamações, a Stellantis, gigante automotiva nascida da fusão entre PSA e FCA, foi forçada a agir. A empresa tem reconhecido a questão e implementado medidas para mitigar os impactos sobre os consumidores. Uma das ações mais notáveis é o ressarcimento de manutenções e reparos já realizados por proprietários de veículos afetados, que arcaram com os custos de problemas diretamente relacionados à correia de distribuição. Além disso, a Stellantis tem estendido garantias para componentes críticos e emitido boletins técnicos para suas redes de concessionárias, detalhando procedimentos de inspeção e substituição preventiva.
A resposta mais contundente da Stellantis, no entanto, veio através de uma mudança fundamental no projeto desses motores. Para os modelos mais recentes e para os futuros lançamentos equipados com os propulsores 1.0 e 1.2 PureTech, a empresa está gradualmente abandonando a correia banhada a óleo em favor de uma corrente de distribuição. Essa transição já é uma realidade em muitos mercados europeus e representa um reconhecimento tácito da falha de projeto da solução original. A corrente, embora também exija manutenção, é tradicionalmente mais robusta e menos suscetível aos problemas de degradação causados pelo contato com o óleo.
Para os proprietários de veículos PureTech existentes, é crucial estar atento aos sinais de alerta e seguir rigorosamente o plano de manutenção recomendado pelo fabricante, utilizando o óleo específico e respeitando os intervalos de troca. Inspeções regulares da correia e do sistema de lubrificação tornam-se ainda mais importantes. A crise da correia banhada a óleo é um lembrete de que inovações, por mais promissoras que pareçam, precisam de um tempo de prova robusto antes de se tornarem padrões. A Stellantis enfrenta o desafio de reconstruir a confiança do consumidor, demonstrando compromisso em resolver as falhas passadas e garantir a durabilidade de seus futuros produtos.