Carro Elétrico
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VW cobra extra por potência prometida em elétricos

A eletrificação automotiva não revoluciona apenas a propulsão, mas também os modelos de negócio. Um exemplo notório é a recente revelação de que um modelo elétrico, cuja potência máxima é um destaque de marketing, só entregará seu desempenho total mediante um pagamento adicional. Embora capaz de operar com 148 cavalos, a marca prometida de 168 cv só se tornará acessível ao proprietário após o desembolso de taxas extras que podem chegar a R$ 4,5 mil.

Este cenário ilustra a ascensão dos carros definidos por software. Nesses veículos, grande parte das funcionalidades e características de desempenho são controladas digitalmente. Isso significa que o hardware para a potência extra de 20 cv já está presente no carro desde a fabricação; a limitação é programática. O fabricante pode “ligar” ou “desligar” funções, transformando o veículo em uma plataforma para upgrades pós-venda.

O cliente adquire um veículo com potencial para 168 cv, mas, inicialmente, recebe uma versão “limitada” a 148 cv. Para desbloquear o desempenho completo, que impacta diretamente a aceleração e a experiência de condução, é necessário efetuar o pagamento. Embora aqui se fale em uma taxa única de até R$ 4,5 mil, a prática levanta questionamentos sobre a transparência no processo de venda e o que realmente constitui o “preço cheio” de um carro.

Este não é um caso isolado. A indústria automotiva busca monetizar recursos que antes eram inclusos. Empresas como BMW já foram criticadas por assinaturas de aquecimento de bancos, e Tesla permite upgrades de aceleração via software. A lógica é criar novas fontes de receita e permitir personalização, pagando apenas pelas funcionalidades desejadas. No entanto, quando se trata de potência, um atributo fundamental, a discussão se intensifica.

Do ponto de vista do consumidor, essa abordagem pode ser um dilema. Há a expectativa de que um carro elétrico, vendido com certas especificações, entregue essa performance sem custos ocultos. Pagar um valor significativo para desbloquear uma capacidade que o veículo já possui fisicamente pode gerar frustração e a sensação de estar sendo cobrado por algo que já deveria ser parte integrante do produto. A confiança pode ser abalada.

Para as montadoras, essa estratégia busca adaptar-se ao mercado e gerar novas margens de lucro. A venda do veículo como produto estático está dando lugar a um modelo de “plataforma de serviços”. Ao oferecer diferentes níveis de potência ou funcionalidades via software, a empresa pode atrair um público maior com um preço de entrada mais competitivo, enquanto monetiza os clientes que desejam o desempenho superior. O debate ético sobre o “possuir” um carro versus “alugar” suas funcionalidades será crucial para o futuro da indústria, exigindo transparência total e equilíbrio entre inovação e satisfação do cliente.